Eles chegam em julho, todos os anos. Às vezes no início, às vezes no final. São aves migratórias, os patos canadenses, pretos e barulhentos. As garças, brancas e silenciosas. Vêm de longe, vêm do hemisfério norte.
Os patos voam em bandas e cobrem o lago como um tapete escuro. Ali, naquele rapido ritual predatório, eles mergulham e voltam com um peixe pequeno na boca. Levantam voo de forma ruidosa e vão pousar em outra parte do lado. Quando estão saciados, repousam no trapiche de madeira, que fica apinhado.
As garcaz enfeitam as margens, como um colar de pérolas alvas. Cada qual faz seu mergulho, quando lhe apetece.
À noite, nao sei onde dormem.
Antes de Setembro, eles se vão. Menos uma, a garça solitária que há alguns anos zanza por aqui.
Este ano está mais frio e mais ventoso. Tempo de mudança. Mas as garças e os patos vieram mais numerosos, por alguma razão. Eles falam que a vida segue e que a natureza está em ordem, quando nos oferecem novamente o cartão postal do mês de Julho no Lago Norte de Brasilia.
TC
sábado, 30 de julho de 2011
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Lá e Cá
Chego de Montevidéu ainda em tempo de receber Miguel e seu filho Pedro, de passagem por Brasilia, rumo ao Tocantins. Falo de Miguel Sousa Tavares, amigo da vida inteira, glorioso autor de Equador e Rio das Flores. Lucia Leão os recebe para mim no aeroporto, estou recebendo uma delegação chinesa. Flavio Mattos, da Radio Senado, satisfaz o desejo de Pedro, também jornalista, de ver o Congresso por dentro e funcionando. Como o pai há 30 anos, ele se apaixona pela obras de mestre Niemeyer. À noite, convoco meu filho Rodrigo e sua namorada Bia a uma inescapável churrascaria e vou pegar Miguel e Pedro para jantarmos. Na porta do hotel, encontramos o embaixador do Brasil em Lisboa, Mario Vilalva, que espera Paulo Portas, o chanceler do novo governo portugues. Miguel quer cumprimentá-lo. São amigos. Quem não é amigo de Miguel em Portugal? O homem se atrasa, Rodrigo me liga cobrando pontualidade. Filhos gostam de nos dar bronca quando têm razão. O homem finalmente desce e nos conta que perdeu a mala, vindo de Joanesburgo para o Brasil, via Moçambique. E daqui irá para a posse de Humala, novo presidente do Peru. Teve que comprar roupas para tudo isso. Em nossa breve conversa, recordo o acordo que assinamos no ano passado, eu e Franklin Martins, então ministro da Secom, com o ministro Lacão e o presidente da RTP, Guilherme Costa, para criarmos um canal internacional lusófono. Precisamos retomar a implementação. Ele me ouve, não diz que sim nem que não. Eu sei que o Governo dele está pensando em privatizar a RTP, a Radio e Televisão de Portugal, o sistemá público deles. Nao havia acreditado, mas a forma como me olhou, quando Miguel me apresentou, sugeriu que é verdade. E depois, quando fez que nao entendeu minha sugestão de retomarmos o acordo, tive certea.
Daqui a pouco, enquanto Miguel, Pedro, Rodrigo e Bia se entregavam ao festim das carnes (e eu também, por que nao dizer?), fiquei pensando e temendo: será que tudo o que eu tenho passado, eu e todos os que têm me ajudado na construção da TV Brasil, um dia veremos uma coisa destas acontecer? Não, não há de ser em vão.
Quando eu comecei a frequentar Portugal, há muitos anos, lá só havia uma TV, a RTP, e Miguel trabalhava nela. Hoje lá existe a Sic, a TVi e outros canais mas é a RTP faz algumas coisas que o setor privado não faz. Nela ocorrem os grandes debates. Nela se faz um programa como o Lá e Cá, parceria com a TV Cultura, com Markun e Carlos Fino, que nós já exibimos. A RTP é que tem canais na e para a Africa. E muito mais.
Melhor comer carne para esquecer.
A caminho do aeroporto, no dia seguinte, passo com eles pela Ermida Dom Bosco, e nada ali é como antes. Existe um condominio do lado esquerdo, que acabou com a amplidão e liquidou com silencio que me fazia ouvir corujas. Como naquele fim de tarde, véspera da morte de Eduardo Martini, em dezembro de 1979. Eu sabia que me avisavam de algo, só não imaginava o quê.
Desta vez não vi nem ouvi corujas. Miguel, que tanto ama o Brasil, foi conhecer mais um pedaço de chão, falar na Flit, a Feira Literária de Tocantins. Eu nao sabia dela, e saber que existe, naqueles confins, só aumentou minha certeza de que estamos nos transformando num grande pais de leitores. Dentre outras grandes coisas.
Não gosto do formato blog-diário mas acabei fazendo este.
TC
Daqui a pouco, enquanto Miguel, Pedro, Rodrigo e Bia se entregavam ao festim das carnes (e eu também, por que nao dizer?), fiquei pensando e temendo: será que tudo o que eu tenho passado, eu e todos os que têm me ajudado na construção da TV Brasil, um dia veremos uma coisa destas acontecer? Não, não há de ser em vão.
Quando eu comecei a frequentar Portugal, há muitos anos, lá só havia uma TV, a RTP, e Miguel trabalhava nela. Hoje lá existe a Sic, a TVi e outros canais mas é a RTP faz algumas coisas que o setor privado não faz. Nela ocorrem os grandes debates. Nela se faz um programa como o Lá e Cá, parceria com a TV Cultura, com Markun e Carlos Fino, que nós já exibimos. A RTP é que tem canais na e para a Africa. E muito mais.
Melhor comer carne para esquecer.
A caminho do aeroporto, no dia seguinte, passo com eles pela Ermida Dom Bosco, e nada ali é como antes. Existe um condominio do lado esquerdo, que acabou com a amplidão e liquidou com silencio que me fazia ouvir corujas. Como naquele fim de tarde, véspera da morte de Eduardo Martini, em dezembro de 1979. Eu sabia que me avisavam de algo, só não imaginava o quê.
Desta vez não vi nem ouvi corujas. Miguel, que tanto ama o Brasil, foi conhecer mais um pedaço de chão, falar na Flit, a Feira Literária de Tocantins. Eu nao sabia dela, e saber que existe, naqueles confins, só aumentou minha certeza de que estamos nos transformando num grande pais de leitores. Dentre outras grandes coisas.
Não gosto do formato blog-diário mas acabei fazendo este.
TC
domingo, 24 de julho de 2011
Uruguai campeão: somos todos tão iguais....
Estou em Montevideo para a agenda bilateral de cooperação que envolve, neste encontro, Ciencia e Tecnologia e Cultura e Comunicação. O ministros Aluizio Mercadante e Ana de Hollanda lideram a delegação brasileira. O DocMontevideo é um grande encontro do audiovisual e dos organismos de comunicação pública da região e coincidiu com esta agenda. Para ele, especificamente, virá o Rogerio Brandão, diretor de Produção e Programação da TV Brasil.
Mas este nariz de cera todo foi para contar algo bem simples mas bem interessante. Chegamos meios famintos e fomos comer no mercado local. Fui com Grassi, presidente da Funarte, a secretaria Marta Porto, de Cidadania e Diversidade Cultural, do Minc, e o presidente da Bibilioteca Nacional, Galeno Amorim. O jogo Uruguai x Paraguai, final da Copa América, estava começando. O cordeiro foi traçado entre um gol e outro, quando tudo parava até que o furor passasse. Um furor bem parecido com o dos brasileiros em jogos decisivos, seja da seleção ou dos diferentes times. Gritos, fogos, vivas, urros. Garçons largavam a garrafa que estavam abrindo ou o prato que estavam levando a uma mesa e só retomavam o serviço depois de cada celebraçao.. Terminamos, pagamos a conta mas esperamos pelo fim do segundo tempo. Faltavam uns dez minutos. Os uruguaios nervosos como os brasileiros em horas parecidas. Gente roendo unha, fumando desesperadamente, bebendo sofregamente, esfregando as mãos, gritando com os jogadores no video como se pudessem ouvir...
Eles ganharam, a celebração tomou conta das ruas, nas quais jogam buscapés do alto dos eficios...voltamos a pé para o hotel, celebrando com eles. Quatro pessoas passando com indiferença até chamariam a atenção...Sou quase indiferente ao futebol mas fiz um esforço, imitando os vivas do Grassi, tomada por sincera emoção ao ver o quanto esta conquista foi importante para os uruguaios.
Nós, latino-americanos, no fundo tão parecidos... Parecidos mas desiguais, social e economicamente. Contras as assimetrias e pelo desenvolvimento mais equilibrado da região, temos a aposta na Integraçao e a cooperação regional, nasquais o Brasil tem mesmo que fazer uma boa e significativa parte da tarefa. Dever do mais rico, como não?
Mas este nariz de cera todo foi para contar algo bem simples mas bem interessante. Chegamos meios famintos e fomos comer no mercado local. Fui com Grassi, presidente da Funarte, a secretaria Marta Porto, de Cidadania e Diversidade Cultural, do Minc, e o presidente da Bibilioteca Nacional, Galeno Amorim. O jogo Uruguai x Paraguai, final da Copa América, estava começando. O cordeiro foi traçado entre um gol e outro, quando tudo parava até que o furor passasse. Um furor bem parecido com o dos brasileiros em jogos decisivos, seja da seleção ou dos diferentes times. Gritos, fogos, vivas, urros. Garçons largavam a garrafa que estavam abrindo ou o prato que estavam levando a uma mesa e só retomavam o serviço depois de cada celebraçao.. Terminamos, pagamos a conta mas esperamos pelo fim do segundo tempo. Faltavam uns dez minutos. Os uruguaios nervosos como os brasileiros em horas parecidas. Gente roendo unha, fumando desesperadamente, bebendo sofregamente, esfregando as mãos, gritando com os jogadores no video como se pudessem ouvir...
Eles ganharam, a celebração tomou conta das ruas, nas quais jogam buscapés do alto dos eficios...voltamos a pé para o hotel, celebrando com eles. Quatro pessoas passando com indiferença até chamariam a atenção...Sou quase indiferente ao futebol mas fiz um esforço, imitando os vivas do Grassi, tomada por sincera emoção ao ver o quanto esta conquista foi importante para os uruguaios.
Nós, latino-americanos, no fundo tão parecidos... Parecidos mas desiguais, social e economicamente. Contras as assimetrias e pelo desenvolvimento mais equilibrado da região, temos a aposta na Integraçao e a cooperação regional, nasquais o Brasil tem mesmo que fazer uma boa e significativa parte da tarefa. Dever do mais rico, como não?
sábado, 2 de julho de 2011
Itamar, que nasceu no mar ...
Vi os telejornais, nesta noite em que Itamar está sendo velado em Juiz de Fora. Inclusive o nosos, da TV Brasil, que estava muito bom, com trecho da entrevista que o ex-o presidente nos deu para a série Presidentes do Brasil Democrático. A dele, feita por Azedo, no 3 a 1, com Helena Chagas e Tales Faria. Falou-se quase tudo sobre Itamar Franco. O topete. Quando ele era presidente, os jornalistas que cobriamos ou frequentavmos o Palácio nos referíamos a ele como "O topete". Naquele tempo, o cabelo nao estava completamente branco, como agora, quando morreu. Morreu senador, posto que o trouxe para a politica, na gloriosa eleição de 1974, em que a ditadura levou uma sova do MDB nas urnas.
Mais de uma vez, em nossas conversas, ele me contou casos da campanha em que percorreu Minas num fusquinha. E uma noite chegou a Coromandel. Como sabem, minha familia Cruvinel é de lá. Eu mesma sou do meio rural, nasci na fazenda mas vivi uns tempos na meritória cidade, onde estudei até o segundo ano primário. A familia de minha mãe é de Abadia dos Dourados, onde nunca vivi na cidade mas morei na fazenda do meu avô. De modo que não sou de uma nem de outra, para não desagradar a ninguem. Itamar me contava que chegou a Coró no inicio da noite, não tinha nada marcado com ninguem. Viu uns jovens estudantes na praça (devia ser a pracinha defronte ao cinema porque só mais tarde fizeram a grande praça Abel Ferreira). Parou o fusca, com o amigo que o acompanhava, e ficou ali um tempão, falando contra a ditadura para os estudantes de Coromandel. Causos à parte, Itamar foi votadíssimo e somou-se à bancada da oposição eleita naquele pleito: tinha Orestes Quercia, Paulo Brossard, Marcos Freire e outros monstros que se consagraram a seguir.
Muitas de suas virtudes foram reconhecidas hoje, inclusive a paternidade do Plano Real. Mas uma delas em quero registrar aqui, embora outros possam ter se referido a ela: Itamar cumpriu um mandato tampão de dois anos e pouco, após o impeachment de Collor em 1992. Mais que qualquer outro, poderia ter patrocinado a emenda da reeleição. Mas preferiu apenas terminar seu governo de transição. O Real lhe permitiu eleger seu ministro da Fazenda, Fernando Henrique, como sucessor. O mesmo Real permitiu a FH aprovar a emenda da reeleição e reeleger-se.
Itamar, neste caso, fez o mesmo que Lula: resistiu ao canto das sereias para garantir a normalidade democrática. E ele estava certo. Aquele momento, ainda conturbado pelo impeachment, nao recomendava tão importante mudança constitucional. FH fez isso num momento melhor, com as coisas mais serenadas.
Vai com Deus, Itamar, que nasceu no mar e fez de Minas sua terra amada.
TC
Mais de uma vez, em nossas conversas, ele me contou casos da campanha em que percorreu Minas num fusquinha. E uma noite chegou a Coromandel. Como sabem, minha familia Cruvinel é de lá. Eu mesma sou do meio rural, nasci na fazenda mas vivi uns tempos na meritória cidade, onde estudei até o segundo ano primário. A familia de minha mãe é de Abadia dos Dourados, onde nunca vivi na cidade mas morei na fazenda do meu avô. De modo que não sou de uma nem de outra, para não desagradar a ninguem. Itamar me contava que chegou a Coró no inicio da noite, não tinha nada marcado com ninguem. Viu uns jovens estudantes na praça (devia ser a pracinha defronte ao cinema porque só mais tarde fizeram a grande praça Abel Ferreira). Parou o fusca, com o amigo que o acompanhava, e ficou ali um tempão, falando contra a ditadura para os estudantes de Coromandel. Causos à parte, Itamar foi votadíssimo e somou-se à bancada da oposição eleita naquele pleito: tinha Orestes Quercia, Paulo Brossard, Marcos Freire e outros monstros que se consagraram a seguir.
Muitas de suas virtudes foram reconhecidas hoje, inclusive a paternidade do Plano Real. Mas uma delas em quero registrar aqui, embora outros possam ter se referido a ela: Itamar cumpriu um mandato tampão de dois anos e pouco, após o impeachment de Collor em 1992. Mais que qualquer outro, poderia ter patrocinado a emenda da reeleição. Mas preferiu apenas terminar seu governo de transição. O Real lhe permitiu eleger seu ministro da Fazenda, Fernando Henrique, como sucessor. O mesmo Real permitiu a FH aprovar a emenda da reeleição e reeleger-se.
Itamar, neste caso, fez o mesmo que Lula: resistiu ao canto das sereias para garantir a normalidade democrática. E ele estava certo. Aquele momento, ainda conturbado pelo impeachment, nao recomendava tão importante mudança constitucional. FH fez isso num momento melhor, com as coisas mais serenadas.
Vai com Deus, Itamar, que nasceu no mar e fez de Minas sua terra amada.
TC
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Um canoeiro na bruma
Enfim, voltar ao blog, e só poder fazer isso às 2 da manhã. Mas se consigo, e escrevo algo, me alegro. Uma crônica para voces. TC
(Crônicas da Península)
Um canoeiro na bruma
Num dia desta semana que passou voando, tivemos uma manhã de Avalon. Pelo menos no Lago Norte, uma bruma densa e alta subiu do Lago e envolveu boa parte da Península. Na minha casa, a massa de névoa, formalizando a chegada do inverno, invadia a varanda. Eu podia tocar aqueles fiapos de nuvem úmida e eles pareciam embaraçar-se em meus cabelos despenteados um pouco antes das sete, a mente ainda oscilando entre o sono pesado e a necessidade de acordar. A bruma subia de lá, do espelho escuro do Lago, como um vapor, como o sopro de um grande animal adormecido numa planície gelada. Um animal siberiano.
Foi então que a vi, quando olhava para a fumegação lacustre. Uma canoa atravessava a bruma, canoa de remos manuais. O remador, tudo indica que era um homem, movimentava os dois braços imprimindo à embarcação um deslizamento uniforme e quase retilíneo. Ia em direção á Ponte do Bragueto, vinda dos lados do Clube do Congresso.
A canoa me fisgou, e fiquei algum tempo seguindo-a com os olhos.
De onde viria aquela pessoa àquela hora da manhã, naquelas condições de tempo? De onde viria ou para onde iria?
Outras perguntas brotavam, e isso ajudava-me a despertar: Iria ele em busca de um amor ou de um trabalho? Os pescadores do Lago eu conheço, saem à noite, de preferência com a lua clara, nunca com este tempo, nem a esta hora da manhã. Ou voltaria o homem de uma noite de amor proibido, saindo cedo e de canoa da casa de uma amante? Não, claro que não, estou delirando. Amores desta ordem devem existir por aqui, mas o amante não sairá de canoa, e nem por água. E ainda que goste de navegar, terá uma lancha ou um barco a motor, como os tantos que singram esta parte do Lago. Talvez o canoeiro seja um traficante de drogas ou se dedique a outros ilícitos. Roubam muito por aqui. Na minha casa assaltam meu pé de manga-maçã, roubam ferramentas e já roubaram um barco com carreta e tudo, içado por outra embarcação. Mas talvez o canoeiro seja um trabalhador honesto e more em algum terreno livre na orla norte. Talvez viva de favor nos fundos de uma destas boas casas, e se dedique a algum trabalho lá para as bandas do Bragueto, ao qual prefere chegar de canoa. Seja como for, ele me causou forte impressão. Na manhã mais fria do ano até agora, apesar da bruma espessa e da umidade, ele não hesitou em seguir seus planos. Estava indo ou voltando de canoa porque assim planejara e desejara. Se quisesse, caminharia um pouco e teria ônibus fácil naquela direção.
Na vida ordinária, já não persistimos no caminho traçado quando achamos que ele se tornou difícil e brumoso. Acabamos buscando um atalho, uma trilha clara, de preferência uma via asfaltada, e evitaremos o frio, o calor e o engarrafamento. A algum lugar chegamos pelo caminho mais fácil mas não com aquele sentimento honroso de ter enfrentado todos perigos em busca de nossa Ítaca. Como este canoeiro, eu continuo gostando de caminhos e horas difíceis embora nunca tenha chegado a Ítaca.
Enquanto eu tinha estes pensamentos um tanto inúteis, o sol ameaçou e a bruma começou a dissipar-se. A varanda agora estava com o ar limpo. Um quero-quero sobrevoou o gramado. Busquei o Lago mas a canoa havia sumido, lá para os lados da ponte, sobre a qual a vida passava nos automóveis indistintos, ao longe.
01.7.2011
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Bin Laden no fundo do mar
Para dar conta das obrigações que tenho, ponho na geladeira a analista politica que sou. Faço análises para mim mesma, penso comigo mesma, discordo e concordo, calada, com uns e outros. só muito raramente cedo às tentações. Como agora, na morte de Bin Laden.
A festa dos americanos por sua morte, em Times Square, me impressinou na noite de domingo. Fiquei vendo emissoras americanas até muito tarde. Claro que o povo americano tem seus motivos e suas feridas, claro que acalentaram por dez anos a justa sede de vingança contra quem comandou o 11 de Setembro. Mas a festa para a morte sempre me parece imprópria.. Algo que só poder americano poderia tornar "natural".
Não creio que o presidente Obama tenha feito a melhor escolha. A festa em Times Square e por todo o país sugere que a popularidade dele vai subir e que suas chances de reeleição, hoje tão minguadas, crescerão. Mas a divulgaão de que houve "enterro" no mar, "de acordo com a tradição islâmica", soou a escárnio. A não apresentação do corpo e da prova da morte do lider terroirsta também são esquisitas, transmitem prepotência. Falam do unilateralismo americano, que está na origem do insurgência do mundo islâmico. O "enterro" de Bin Laden no fundo do mar remete à decapitação cruenta de Saddan Hussein.
Laden e Saddan foram principes da barbárie. Nada a favor deles. Mas quando os Estados Unidos dãoc abo da vida deles de forma tão pouco civilizada, também se aproximam do extremo. Prendê-lo e julgá-lo, como a Europa fez com os criminosos nazistas, daria algum trabalho mas reforçaria a ideia dos Estados Unidos como pátria da liberdade, da democracia e dos direitos humanios. Corrijo-me: Obama até pode ganhar com a morte de Bin Laden Os Estados Unidos, não. Pelo menos, no imaginário do mundo, longe de Times Square.
A festa dos americanos por sua morte, em Times Square, me impressinou na noite de domingo. Fiquei vendo emissoras americanas até muito tarde. Claro que o povo americano tem seus motivos e suas feridas, claro que acalentaram por dez anos a justa sede de vingança contra quem comandou o 11 de Setembro. Mas a festa para a morte sempre me parece imprópria.. Algo que só poder americano poderia tornar "natural".
Não creio que o presidente Obama tenha feito a melhor escolha. A festa em Times Square e por todo o país sugere que a popularidade dele vai subir e que suas chances de reeleição, hoje tão minguadas, crescerão. Mas a divulgaão de que houve "enterro" no mar, "de acordo com a tradição islâmica", soou a escárnio. A não apresentação do corpo e da prova da morte do lider terroirsta também são esquisitas, transmitem prepotência. Falam do unilateralismo americano, que está na origem do insurgência do mundo islâmico. O "enterro" de Bin Laden no fundo do mar remete à decapitação cruenta de Saddan Hussein.
Laden e Saddan foram principes da barbárie. Nada a favor deles. Mas quando os Estados Unidos dãoc abo da vida deles de forma tão pouco civilizada, também se aproximam do extremo. Prendê-lo e julgá-lo, como a Europa fez com os criminosos nazistas, daria algum trabalho mas reforçaria a ideia dos Estados Unidos como pátria da liberdade, da democracia e dos direitos humanios. Corrijo-me: Obama até pode ganhar com a morte de Bin Laden Os Estados Unidos, não. Pelo menos, no imaginário do mundo, longe de Times Square.
Cavalos na manhã de Brasília
Compartilho com vocês o artigo publicado no Correio Braziliense do dia 30 de Abril de 2011
Cavalos na manhã de Brasília :: Tereza Cruvinel
Jornalista, presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC)
Jornalista, presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC)
Quando passo de carro pela outra pista, os cavaleiros já estão dentro da Ponte do Bragueto, sob o sol brilhante da quinta-feira santa, 21 de abril, que coincide com os 51 anos de Brasília. Os cavaleiros são brancos, pretos, pardos, mulatos, caboclos. Os cavalos são baios, brancos, pretos, pedriscos, pintados. Há burros, éguas, mulas, jumentos, potros e potrinhos. Vejo arreatas bonitas, cobertas com pelegos e cochenis coloridos, e montarias modestas, o cavaleiro empinado sobre o arreio seco com forro de retalhos.
Eles vêm de Paracatu, Unaí, Buritis, Minas diversas. De vários cantos de Goiás, uns mais próximos, como Formosa, Cavalcante, Pirenópolis, Corumbá de Goiás, Luziânia, Cristalina. E de mais longe até. Vejo mulheres montadas. São minoria, mas estão lá. Vejo algumas alas da “sociedade organizada”. Uma que parece ser da Contag e outra que deve ser do MST. Mas são, principalmente, homens e mulheres deste antigo sertão festejando o aniversário de Brasília. Em vez de dobrar à direita para o Lago Norte, sigo na outra pista, contemplando o porte dos cavalos e a beleza daqueles homens e mulheres do campo. O que fisga é uma suave e melancólica emoção. No Balão do Torto é que vou encontrar os últimos e atrasados cavaleiros.
Esse espetáculo vem se tornando tradição nos últimos anos, graças ao esforço de um conjunto de pessoas e instituições, mas os cavaleiros e cavaleiras atendem ao chamado porque sabem, porque experimentam em suas vidas, o que Brasília significou para o velho sertão esquecido. Por ele passou antes de todos o Anhanguera, buscando ouro e matando índios. Mais tarde, em 1849, aqui esteve o historiador Francisco de Varnhagen, o primeiro a indicar que a nova capital devia ficar entre as três lagoas: a Feia (Formosa), a Formosa (hoje em Planaltina-GO, a Brasilinha) e a Mestre D’Armas (Planaltina-DF). Em 1892 veio Luiz Cruls, com sua missão composta de astrólogos, botânicos, médicos, geógrafos e outros pesquisadores encarregados de estudar o Planalto.
Duas outras comissões (uma delas integrada pelo dr. Ernesto Silva, falecido há dois anos, logo depois de conceder-me longa entrevista) trataram ainda da demarcação do sítio onde se ergueria Brasília, hoje muito próxima dos pontos indicados por Cruls e Varnhagen. Ambos cruzaram esses chapadões a trote. Meu avô materno, pelos anos 20 do século passado, passou anos indo e vindo, a cavalo, é claro, entre o Alto Paranaíba, em Minas (Coromandel, Abadia dos Dourados, Paracatu) e o sertão de Goiás. Minha avó sempre rezando para que voltasse. Buscava gado para revender e ganhar a vida.
Por tudo isso é forte o simbolismo da cavalhada. Podemos dizer que a história, a do Brasil, em geral, e do Planalto Central, em particular, foi escrita na pata dos cavalos. Nos tempos antigos de Portugal, não havia festa sem cavalhada, tradição que cruzou o Atlântico e sobrevive entre nós. No início dos 700, os árabes atravessaram Gibraltar e ocuparam a Península Ibérica até o século 15. Em 778, o rei francês Carlos Magno atravessou os Pireneus com seu exército para expulsá-los. Não conseguiu, mas virou lenda. Tudo a ver com Pirenópolis e suas montanhas, também chamadas Pireneus.
Os que por aqui nasceram, os que por aqui se estabeleceram buscando fronteiras novas (como Ceres e Formosa), os que chegaram chamados para a aventura de construir Brasília, todos sabemos que aqui havia um sertão, uma espécie de Idade Média, um ermo esquecido pelo Brasil governado do litoral para o litoral. O que sabemos, digam o que quiserem da cidade, é que Brasília foi ruptura e ousadia, realizadas por homens e mulheres liderados por um estadista, na crença comum de que outro Brasil era possível. Ainda hoje, é quando isso acontece que o Brasil muda de cara e de paisagem.
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