Vi os telejornais, nesta noite em que Itamar está sendo velado em Juiz de Fora. Inclusive o nosos, da TV Brasil, que estava muito bom, com trecho da entrevista que o ex-o presidente nos deu para a série Presidentes do Brasil Democrático. A dele, feita por Azedo, no 3 a 1, com Helena Chagas e Tales Faria. Falou-se quase tudo sobre Itamar Franco. O topete. Quando ele era presidente, os jornalistas que cobriamos ou frequentavmos o Palácio nos referíamos a ele como "O topete". Naquele tempo, o cabelo nao estava completamente branco, como agora, quando morreu. Morreu senador, posto que o trouxe para a politica, na gloriosa eleição de 1974, em que a ditadura levou uma sova do MDB nas urnas.
Mais de uma vez, em nossas conversas, ele me contou casos da campanha em que percorreu Minas num fusquinha. E uma noite chegou a Coromandel. Como sabem, minha familia Cruvinel é de lá. Eu mesma sou do meio rural, nasci na fazenda mas vivi uns tempos na meritória cidade, onde estudei até o segundo ano primário. A familia de minha mãe é de Abadia dos Dourados, onde nunca vivi na cidade mas morei na fazenda do meu avô. De modo que não sou de uma nem de outra, para não desagradar a ninguem. Itamar me contava que chegou a Coró no inicio da noite, não tinha nada marcado com ninguem. Viu uns jovens estudantes na praça (devia ser a pracinha defronte ao cinema porque só mais tarde fizeram a grande praça Abel Ferreira). Parou o fusca, com o amigo que o acompanhava, e ficou ali um tempão, falando contra a ditadura para os estudantes de Coromandel. Causos à parte, Itamar foi votadíssimo e somou-se à bancada da oposição eleita naquele pleito: tinha Orestes Quercia, Paulo Brossard, Marcos Freire e outros monstros que se consagraram a seguir.
Muitas de suas virtudes foram reconhecidas hoje, inclusive a paternidade do Plano Real. Mas uma delas em quero registrar aqui, embora outros possam ter se referido a ela: Itamar cumpriu um mandato tampão de dois anos e pouco, após o impeachment de Collor em 1992. Mais que qualquer outro, poderia ter patrocinado a emenda da reeleição. Mas preferiu apenas terminar seu governo de transição. O Real lhe permitiu eleger seu ministro da Fazenda, Fernando Henrique, como sucessor. O mesmo Real permitiu a FH aprovar a emenda da reeleição e reeleger-se.
Itamar, neste caso, fez o mesmo que Lula: resistiu ao canto das sereias para garantir a normalidade democrática. E ele estava certo. Aquele momento, ainda conturbado pelo impeachment, nao recomendava tão importante mudança constitucional. FH fez isso num momento melhor, com as coisas mais serenadas.
Vai com Deus, Itamar, que nasceu no mar e fez de Minas sua terra amada.
TC
sábado, 2 de julho de 2011
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Um canoeiro na bruma
Enfim, voltar ao blog, e só poder fazer isso às 2 da manhã. Mas se consigo, e escrevo algo, me alegro. Uma crônica para voces. TC
(Crônicas da Península)
Um canoeiro na bruma
Num dia desta semana que passou voando, tivemos uma manhã de Avalon. Pelo menos no Lago Norte, uma bruma densa e alta subiu do Lago e envolveu boa parte da Península. Na minha casa, a massa de névoa, formalizando a chegada do inverno, invadia a varanda. Eu podia tocar aqueles fiapos de nuvem úmida e eles pareciam embaraçar-se em meus cabelos despenteados um pouco antes das sete, a mente ainda oscilando entre o sono pesado e a necessidade de acordar. A bruma subia de lá, do espelho escuro do Lago, como um vapor, como o sopro de um grande animal adormecido numa planície gelada. Um animal siberiano.
Foi então que a vi, quando olhava para a fumegação lacustre. Uma canoa atravessava a bruma, canoa de remos manuais. O remador, tudo indica que era um homem, movimentava os dois braços imprimindo à embarcação um deslizamento uniforme e quase retilíneo. Ia em direção á Ponte do Bragueto, vinda dos lados do Clube do Congresso.
A canoa me fisgou, e fiquei algum tempo seguindo-a com os olhos.
De onde viria aquela pessoa àquela hora da manhã, naquelas condições de tempo? De onde viria ou para onde iria?
Outras perguntas brotavam, e isso ajudava-me a despertar: Iria ele em busca de um amor ou de um trabalho? Os pescadores do Lago eu conheço, saem à noite, de preferência com a lua clara, nunca com este tempo, nem a esta hora da manhã. Ou voltaria o homem de uma noite de amor proibido, saindo cedo e de canoa da casa de uma amante? Não, claro que não, estou delirando. Amores desta ordem devem existir por aqui, mas o amante não sairá de canoa, e nem por água. E ainda que goste de navegar, terá uma lancha ou um barco a motor, como os tantos que singram esta parte do Lago. Talvez o canoeiro seja um traficante de drogas ou se dedique a outros ilícitos. Roubam muito por aqui. Na minha casa assaltam meu pé de manga-maçã, roubam ferramentas e já roubaram um barco com carreta e tudo, içado por outra embarcação. Mas talvez o canoeiro seja um trabalhador honesto e more em algum terreno livre na orla norte. Talvez viva de favor nos fundos de uma destas boas casas, e se dedique a algum trabalho lá para as bandas do Bragueto, ao qual prefere chegar de canoa. Seja como for, ele me causou forte impressão. Na manhã mais fria do ano até agora, apesar da bruma espessa e da umidade, ele não hesitou em seguir seus planos. Estava indo ou voltando de canoa porque assim planejara e desejara. Se quisesse, caminharia um pouco e teria ônibus fácil naquela direção.
Na vida ordinária, já não persistimos no caminho traçado quando achamos que ele se tornou difícil e brumoso. Acabamos buscando um atalho, uma trilha clara, de preferência uma via asfaltada, e evitaremos o frio, o calor e o engarrafamento. A algum lugar chegamos pelo caminho mais fácil mas não com aquele sentimento honroso de ter enfrentado todos perigos em busca de nossa Ítaca. Como este canoeiro, eu continuo gostando de caminhos e horas difíceis embora nunca tenha chegado a Ítaca.
Enquanto eu tinha estes pensamentos um tanto inúteis, o sol ameaçou e a bruma começou a dissipar-se. A varanda agora estava com o ar limpo. Um quero-quero sobrevoou o gramado. Busquei o Lago mas a canoa havia sumido, lá para os lados da ponte, sobre a qual a vida passava nos automóveis indistintos, ao longe.
01.7.2011
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Bin Laden no fundo do mar
Para dar conta das obrigações que tenho, ponho na geladeira a analista politica que sou. Faço análises para mim mesma, penso comigo mesma, discordo e concordo, calada, com uns e outros. só muito raramente cedo às tentações. Como agora, na morte de Bin Laden.
A festa dos americanos por sua morte, em Times Square, me impressinou na noite de domingo. Fiquei vendo emissoras americanas até muito tarde. Claro que o povo americano tem seus motivos e suas feridas, claro que acalentaram por dez anos a justa sede de vingança contra quem comandou o 11 de Setembro. Mas a festa para a morte sempre me parece imprópria.. Algo que só poder americano poderia tornar "natural".
Não creio que o presidente Obama tenha feito a melhor escolha. A festa em Times Square e por todo o país sugere que a popularidade dele vai subir e que suas chances de reeleição, hoje tão minguadas, crescerão. Mas a divulgaão de que houve "enterro" no mar, "de acordo com a tradição islâmica", soou a escárnio. A não apresentação do corpo e da prova da morte do lider terroirsta também são esquisitas, transmitem prepotência. Falam do unilateralismo americano, que está na origem do insurgência do mundo islâmico. O "enterro" de Bin Laden no fundo do mar remete à decapitação cruenta de Saddan Hussein.
Laden e Saddan foram principes da barbárie. Nada a favor deles. Mas quando os Estados Unidos dãoc abo da vida deles de forma tão pouco civilizada, também se aproximam do extremo. Prendê-lo e julgá-lo, como a Europa fez com os criminosos nazistas, daria algum trabalho mas reforçaria a ideia dos Estados Unidos como pátria da liberdade, da democracia e dos direitos humanios. Corrijo-me: Obama até pode ganhar com a morte de Bin Laden Os Estados Unidos, não. Pelo menos, no imaginário do mundo, longe de Times Square.
A festa dos americanos por sua morte, em Times Square, me impressinou na noite de domingo. Fiquei vendo emissoras americanas até muito tarde. Claro que o povo americano tem seus motivos e suas feridas, claro que acalentaram por dez anos a justa sede de vingança contra quem comandou o 11 de Setembro. Mas a festa para a morte sempre me parece imprópria.. Algo que só poder americano poderia tornar "natural".
Não creio que o presidente Obama tenha feito a melhor escolha. A festa em Times Square e por todo o país sugere que a popularidade dele vai subir e que suas chances de reeleição, hoje tão minguadas, crescerão. Mas a divulgaão de que houve "enterro" no mar, "de acordo com a tradição islâmica", soou a escárnio. A não apresentação do corpo e da prova da morte do lider terroirsta também são esquisitas, transmitem prepotência. Falam do unilateralismo americano, que está na origem do insurgência do mundo islâmico. O "enterro" de Bin Laden no fundo do mar remete à decapitação cruenta de Saddan Hussein.
Laden e Saddan foram principes da barbárie. Nada a favor deles. Mas quando os Estados Unidos dãoc abo da vida deles de forma tão pouco civilizada, também se aproximam do extremo. Prendê-lo e julgá-lo, como a Europa fez com os criminosos nazistas, daria algum trabalho mas reforçaria a ideia dos Estados Unidos como pátria da liberdade, da democracia e dos direitos humanios. Corrijo-me: Obama até pode ganhar com a morte de Bin Laden Os Estados Unidos, não. Pelo menos, no imaginário do mundo, longe de Times Square.
Cavalos na manhã de Brasília
Compartilho com vocês o artigo publicado no Correio Braziliense do dia 30 de Abril de 2011
Cavalos na manhã de Brasília :: Tereza Cruvinel
Jornalista, presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC)
Jornalista, presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC)
Quando passo de carro pela outra pista, os cavaleiros já estão dentro da Ponte do Bragueto, sob o sol brilhante da quinta-feira santa, 21 de abril, que coincide com os 51 anos de Brasília. Os cavaleiros são brancos, pretos, pardos, mulatos, caboclos. Os cavalos são baios, brancos, pretos, pedriscos, pintados. Há burros, éguas, mulas, jumentos, potros e potrinhos. Vejo arreatas bonitas, cobertas com pelegos e cochenis coloridos, e montarias modestas, o cavaleiro empinado sobre o arreio seco com forro de retalhos.
Eles vêm de Paracatu, Unaí, Buritis, Minas diversas. De vários cantos de Goiás, uns mais próximos, como Formosa, Cavalcante, Pirenópolis, Corumbá de Goiás, Luziânia, Cristalina. E de mais longe até. Vejo mulheres montadas. São minoria, mas estão lá. Vejo algumas alas da “sociedade organizada”. Uma que parece ser da Contag e outra que deve ser do MST. Mas são, principalmente, homens e mulheres deste antigo sertão festejando o aniversário de Brasília. Em vez de dobrar à direita para o Lago Norte, sigo na outra pista, contemplando o porte dos cavalos e a beleza daqueles homens e mulheres do campo. O que fisga é uma suave e melancólica emoção. No Balão do Torto é que vou encontrar os últimos e atrasados cavaleiros.
Esse espetáculo vem se tornando tradição nos últimos anos, graças ao esforço de um conjunto de pessoas e instituições, mas os cavaleiros e cavaleiras atendem ao chamado porque sabem, porque experimentam em suas vidas, o que Brasília significou para o velho sertão esquecido. Por ele passou antes de todos o Anhanguera, buscando ouro e matando índios. Mais tarde, em 1849, aqui esteve o historiador Francisco de Varnhagen, o primeiro a indicar que a nova capital devia ficar entre as três lagoas: a Feia (Formosa), a Formosa (hoje em Planaltina-GO, a Brasilinha) e a Mestre D’Armas (Planaltina-DF). Em 1892 veio Luiz Cruls, com sua missão composta de astrólogos, botânicos, médicos, geógrafos e outros pesquisadores encarregados de estudar o Planalto.
Duas outras comissões (uma delas integrada pelo dr. Ernesto Silva, falecido há dois anos, logo depois de conceder-me longa entrevista) trataram ainda da demarcação do sítio onde se ergueria Brasília, hoje muito próxima dos pontos indicados por Cruls e Varnhagen. Ambos cruzaram esses chapadões a trote. Meu avô materno, pelos anos 20 do século passado, passou anos indo e vindo, a cavalo, é claro, entre o Alto Paranaíba, em Minas (Coromandel, Abadia dos Dourados, Paracatu) e o sertão de Goiás. Minha avó sempre rezando para que voltasse. Buscava gado para revender e ganhar a vida.
Por tudo isso é forte o simbolismo da cavalhada. Podemos dizer que a história, a do Brasil, em geral, e do Planalto Central, em particular, foi escrita na pata dos cavalos. Nos tempos antigos de Portugal, não havia festa sem cavalhada, tradição que cruzou o Atlântico e sobrevive entre nós. No início dos 700, os árabes atravessaram Gibraltar e ocuparam a Península Ibérica até o século 15. Em 778, o rei francês Carlos Magno atravessou os Pireneus com seu exército para expulsá-los. Não conseguiu, mas virou lenda. Tudo a ver com Pirenópolis e suas montanhas, também chamadas Pireneus.
Os que por aqui nasceram, os que por aqui se estabeleceram buscando fronteiras novas (como Ceres e Formosa), os que chegaram chamados para a aventura de construir Brasília, todos sabemos que aqui havia um sertão, uma espécie de Idade Média, um ermo esquecido pelo Brasil governado do litoral para o litoral. O que sabemos, digam o que quiserem da cidade, é que Brasília foi ruptura e ousadia, realizadas por homens e mulheres liderados por um estadista, na crença comum de que outro Brasil era possível. Ainda hoje, é quando isso acontece que o Brasil muda de cara e de paisagem.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Sobre Aécio Neves e o post pirata no "twitter"
Considero-me amiga pessoal de Aécio Neves, bem como de sua irmã Andrea e de sua mãe, Inês Maria. Os Neves - com quem convivo desde quando Tancredo Neves era senador - jamais pensariam, tenho certeza, que sob minha direção o "twitter" da TV Brasil agrediu o senador. Mas isso aconteceu. Alguém violou a senha ou conseguiu um acesso irregular, de algum modo, e postou a mensagem, na noite de ontem, terça, 19/4. Determinei apuração rigorosa. Se a origem for externa, poderei fazer pouco. Se for interna, o responsável será punido.
Há pouco, divulgamos a nota abaixo. TC.
TV Brasil esclarece
Na noite de terça-feira, dia 19, o “twitter” da TV Brasil, utilizado exclusivamente para divulgar a programação da emissora pública, teve seu acesso violado e veiculou mensagem ofensiva ao senador e ex-governador Aécio Neves. Minutos após a veiculação a mensagem pirata foi descoberta por nossa área de comunicação e foi devidamente excluída. Uma mensagem de desculpas pelo ocorrido foi postada, evitando citar nominalmente o senador para não gerar especulações. Logo que fui informada do ocorrido liguei para o gabinete do senador, por quem tenho respeito, dmiração e amizade de notório conhecimento. Não estando ele presente, notifiquei seu assessor Luiz Neto do corrido, certa de que o senador jamais atribuiria á direção da TV Brasil este ato lamentável. Ainda na noite de terça-feira determinei a realização de investigação, pela área de tecnologia, em busca de esclarecimentos sobre a origem da mensagem. Se eventualmente a origem for interna, haverá apuração de responsabilidade e correspondente punição.
Hoje, quarta-feira, 20 de abril, pude falar pessoalmente com o senador, a quem relatei as providências tomadas para apurar o ocorrido e esclareci que nosso “twitter” jamais postou qualquer mensagem que não aquelas destinadas a divulgar a programação da TV Brasil. Como eu esperava, o senador Aécio Neves reiterou sua confiança em minha atuação como dirigente da TV Brasil, pautanda pelo pluralismo de opiniões e o apartidarismo. Ele desconhecia a iniciativa de deputados do PSDB e do DEM de Minas Gerais, de pedir à Procuradoria Geral da República apuração do uso do instrumento virtual para atacar o ex-governador de Minas, uma iniciativa reforçada pela radicalização do quadro político mineiro entre Governo e Oposição.
Reiterando a condenação deste ato de oportunismo político e o compromisso com a apuração cabal do ocorrido, apresento pessoalmente estes esclarecimentos em sinal de minha consideração para com Aécio e toda a família Neves, que sempre me honrou com amizade e consideração.
Brasília, 20 de abril de 2011
Tereza Cruvinel
Diretora-presidente da EBC/TV Brasil
terça-feira, 5 de abril de 2011
O Dia que Durou 21 anos
A série que a TV Brasil está exibindo sobre a conjuntura que levou ao golpe de 1964 é um primor. Falo sem cabotinice porque a obra é uma coprodução da TV publica com a produção independente. Com a Pequi Filmes. O fio condutor é do jornalista, ex-preso político e ex-exilado Flavio Tavares, com direção de seu filho Camilo. Mas é de arrepiar a documentação sobre a participação dos Estados Unidos na tessitura do golpe. Sabemos que a embaixada americana está acompanhando a série. Felizmente, os arquivos lá já foram abertos. Aqui, ainda estamos esperando.
Apoiamos a produção da série com muita disposição. Estamos exibindo com muito orgulho.
Revisitando a história. Pelo direito à memória.
Tereza Cruvinel
Apoiamos a produção da série com muita disposição. Estamos exibindo com muito orgulho.
Revisitando a história. Pelo direito à memória.
Tereza Cruvinel
domingo, 3 de abril de 2011
Lembranças de José Alencar
Compartilho com voces o artigo de sábado, 01.045.2011, no Correio Braziliense, seção de Opinião. Minhas lembranças da convivência com José Alencar, um tipo de politico em extinção: os que nao precisam da politica para nada, exceto para servir ao pais, com ele contribuir de alguma forma. Alencar teve um carrreira curta mas fulgurante, intensa, republicana no melhor sentido da palavra, o do compromisso integral com a defesa da coisa pública. Minhas lembranças são pequenas, modestas mas espero que contribuam para a preservação de sua memória, agora que elese foi mesmo, depois de muito nos ameaçar com isso mas acaba vencendo o câncer.
Lembranças de José Alencar
Fui ao Planalto no final da manhã de quarta-feira despedir-me de José Alencar. Seu corpo chegara há pouco mas eu viajaria à tarde, e não iria sem lhe dizer adeus. Pensei encontrar um salão ainda vazio e passar como uma sombra mas lá já estavam meio Congresso e meio Governo. A presidenta Dilma, o presidente Lula e comitiva chegariam de Portugal à noite. Naquele mundo de que ando afastada, vi gente de tempos e partidos diversos, do Governo, da oposição, do olimpo atual e do vale dos caídos. Mas eram políticos, ou pessoas da vida pública. Quando sai, já se formava no térro a ordeira e silenciosa fila de brasileiros comuns que queriam se despedir de Alencar. Homens e mulheres estavam ali, com naturalidade, na porta de um palácio que já teve seus tempos de fortaleza. Em outros, foi cidade proibida ao povo. Agora, vão ao Planalto como sempre foram ao Congresso e isso é obra do Governo de Lula e Alencar, que trouxe tantas mudanças para a nossa paisagem nacional.
Como jornalista, tive em Alencar, mais que um informante ou fonte, um interlocutor para a reflexão e a análise das situações políticas. Conheci-o ainda candidato a senador por Minas, em 1998, através de José Aparecido, que o apoiava na chapa de Itamar para governador. Minas estava num daqueles seus suspiros de afirmação diante do poder central, e isso passava pela eleição de Itamar contra o governador que tentava a reeleição, Eduardo Azeredo. Aliás, foi nesta eleição que Marcos Valério montou seu experimento de caixa dois centralizado, o valerioduto, mais tarde apresentado como “mensalão”. O cliente já era o PT e não mais o PSDB. A palavra e a narrativa do “mensalão” serviam melhor ao propósito político de, se possível, derrubar o governo de Lula e Alencar. Itamar ganhou, derrotando sua criatura presidencial, Fernando Henrique Cardoso, e Alencar chegou ao Senado como ave um tanto diferente.
Freqüentei muito seu gabinete da ala Teotônio Vilela, e ainda que não arranjasse informação “nacional”, tinha notícias frescas de Minas. De vez em quando, ganhava uma garrafa de Maria da Cruz, que mandava para um amigo em Portugal tirar melhor proveito. Adriano, fiel escudeiro, sempre pronto a facilitar uma conversa telefônica quando era preciso.
Acompanhei muito de perto as articulações, cheias de idas e vindas, para a inclusão do PL de Alencar na coligação de apoio a Lula em 2002. Lá em Belo Horizonte, Alencar era uma noiva para a esquerda. Lula ia lá com freqüência fazer a corte, cercado não só pelos petistas locais, como Patrus Ananias, Virgilio Guimarães, Fernando Pimentel, Paulo Delgado, Sandra Starling, tantos. A roda maior incluía o Célio de Castro, que ainda era prefeito da capital, Sergio Miranda, do PC do B, Manoel Costa, do PDT, uma algaravia, aquela gente quase toda mais jovem em torno do homem rico que podia ser o vice de Lula na campanha decisiva. Lula jurava que, se perdesse, não concorreria mais. Estive numa delas. Alencar, um homem rico, já entrado em anos, que não precisava da política para nada, revelava gosto e paciência para a tertúlia, a manha, a confubulação. A política chegava tarde em sua vida mas chegava para lhe dar um prazer e uma realização que só a condição de empresário bem sucedido não trouxera. E ele a exerceu com gosto e com paixão, e com naturalidade, como se tivesse passado a vida num partido.
Recordo Alencar num almoço alegre, em junho de 2002, depois de sua oficialização como vice de Lula pelo PL. Servia pessoalmente um vinho português e irradiava contentamento. O menino pobre de Caratinga que deu a volta por cima, virando rico empresário, agora voltava às origens como vice do candidato operário. Ele tinha este sentimento de reencontro e tinha certeza de que o governo de Lula faria bem ao Brasil. Por isso, decidira dar um aval com seu nome, sua condição de empresário, sua credibilidade juntos às elites. Se não as convenceu, ajudou Lula a ganhar a parte da classe média que antes não votava nele.
Guardo dele alguns cartões ou pequenas cartas, uma delas por ocasião de minha nomeação para a presidência da EBC/TV Brasil. Outro, muito recente, agradecendo um vídeo que enviei. Recordo-o em tantas ocasiões, sempre feliz em seu oficio da maturidade, no qual ingressara para servir, não para servir-se.
Já se falou muito dele e de seus exemplos. Da luta do menino pobre para estudar, da luta do jovem ambicioso para ganhar dinheiro e vencer como empresário, da luta do homem maduro pela vida e contra o câncer. Mas havia nele também isso, o exercício prazeroso, lúdico e limpo da política. Tardia, o que a vida política de Alencar teve de curta ganhou em intensidade e entrega, e por isso sua partida calou tão fundo em tantos, especialmente nos milhares que foram ao Planalto se despedir dele.
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