quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

De volta

Voltar ao Brasil,  ao sol, à luz, aos afetos, aos problemas....
Foram 15 dias intensos nos EUA, com a gratificante constataçao de que a Tv Brasil vai ganhando terreno ali, sobretudo entre os brasileiros emigrados. Eu e Phidias Barbosa fizemos um conjunto de ações de divulgação que já começaram a render frutos. Hoje nossa operadora, Dish Network, mandou um folder lindo com divulgação da programação entre os assinantes.
A outra semana foi de ferias com meu filho Rodrigo, dias inteiros futucando Nova York.
Aqui chegando, coisas, problemas, trabalho, muito trabalho, todos os dias muitas horas enfrentando a chuva de problemas que cai todos os dias dentro da EBC.
Mas vamos indo, missão é missão.
T.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A TV Brasil e os brasileiros no mundo

Compartilho com vocês o artigo publicado no Correio Braziliense do dia 05 de fevereiro de 2011

Newark e Nova York — A data de envio deste artigo ao Correio Braziliense coincide com a viagem de trabalho aos Estados Unidos para ações de divulgação da TV Brasil Internacional neste país onde vivem 1,5 milhão de brasileiros. As transmissões começaram em 15 de dezembro, quando todos nós, no Brasil, enfrentávamos o aperto de agenda típico dos fins de ano, agravado em 2010 pela transição de governo. O fato foi pouco divulgado aqui e passou batido no Brasil, onde as realizações da EBC raramente são registradas, a não ser quando a notícia é negativa.

Passados os ritos, eu e o gerente operacional do canal, Phidias Barbosa, viemos agora aos EUA a convite da operadora Dish Network, que distribui o canal. Chegamos com a nevasca que atinge o país. Começo falando da comunidade brasileira local, que sabemos ser numerosa mas cuja visibilidade sempre surpreende. Em Newark, ela constitui verdadeira cidadela no Ironbound. O som da nossa língua ecoa pelas ruas e nelas você encontra lojas de pão de queijo, pamonha, self-services e churrascarias brasileiras. Elegemos o restaurante Casanova como ponto, seduzidos pela simpatia do dono José Moreira, mineiro de Ipatinga, que já nos recebeu com os telões do salão transmitindo o Repórter Brasil. Lá tivemos depois um encontro com os jornais, publicações e líderes da comunidade brasileira. Fico conhecendo, entre outros, os jornalistas Roberto Lima, do Brasilian Voice e Francisco Sampa, do Brazilian Press, o produtor Adnor Pitanga e o ativo publicitário José Nunes.

Na Dish, foi sorte contar com Vanessa Mael, brasileira que trabalha com canais de língua portuguesa. Mais que uma interlocutora, foi uma amiga. Ela programou encontro com os retaillers, os vendedores de assinatura e instaladores de antenas. Marcio Preto, outro mineiro, é o campeão entre eles. Depois, fomos com ela a Queens, visitar o enorme call center da operadora. Novamente a emoção de lá encontrar tantos jovens brasileiros, trabalhando em busca de algum sonho. Tarefa cumprida — instruí-los melhor sobre a programação —, a agenda mudou para Manhattan.

A neve e o frio aumentam. Passamos uma manhã com Edilberto Mendes, jornalista brasileiro que está em NY há 27 anos e é o editor do pioneiro The Brazilians. Como todos, ele gosta de nossa proposta, de incluir a comunidade na programação, o que já começamos a fazer no programa Brasileiros no Mundo, criado pela Marilena Chiarelli, quando ela ainda estava conosco. Entre chás e cafés, ele nos dá outras dicas. Algumas, vamos levar para o Max Gonçalves, nosso gerente de programação. Mais tarde, ele nos apresenta a esse empresário empreendedor e bem-sucedido que é o João de Mattos, criador do Brazilian Day, celebração local do 7 de Setembro. Nos últimos anos, a TV Globo teve a louvável iniciativa de apoiá-lo e transmití-lo. Ainda há contatos a fazer em NY e, se a nevasca permitir, iremos a Denver, Colorado, para reunião com a cúpula da Dish. Até aqui, valeu a pena.

O canal internacional da TV Brasil seria criado em algum momento, na linha do que fizeram todas as TVs públicas do mundo. É por meio desses canais que a nação se expressa, mesmo quando existem os canais comerciais. As três maiores emissoras privadas brasileiras têm os seus, como é sabido. Mas cabe ao sistema público de cada país realizar as transmissões que envolvem a nacionalidade. Quem acompanhou, viu que coube à TV pública chilena transmitir o resgate dos mineiros soterrados, assim como foi a TV pública argentina que transmitiu os funerais do ex-presidente Kirchner. A posse da presidenta Dilma foi transmitida internamente por um pool liderado pela EBC. A TV Brasil Internacional disponibilizou o sinal para o exterior, utilizado inclusive pela CNN.

A criação do canal, eu dizia, teria demorado mais se não fosse a cobrança dos emigrados, que hoje somam 3,5 milhões. Na conferência que o Itamaraty realizou em 2009, eles nos cobraram muito o canal internacional. Na de 2010, pudemos dizer que ele já estava disponível em 49 países africanos, 13 latino-americanos, nos EUA e em Portugal. Em breve, estará em muitos outros, levando informação e cultura aos brasileiros que vivem fora e fortalecendo o novo papel do Brasil no mundo.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Tempo e velocidade

Agora à noite datei um documento e vi que era 20 de Janeiro. Lembrei que era aniversário de minha Carmem e eu nem sabia se ela chegara da Argentina.  Vi que  era quase meia noite mas eu devia ligar assim mesmo. E vi que o Dia de São Sebastião já havia chegado e acabado, num ano que como todos os últimos da minha vida vai passando em alta velocidade.  Nao deve ser só minha esta percepção de que a vida transcorre agora em alta velocidade, logo agora que eu preciso de mais tempo para fazer tanta coisa que ainda não foi feita. E vi que 2010 vai seguindo o mesmo embalo, e que tantas coisas já acontecerma, na minha vida e na vida do mundo, nestes 20 dias.  Há um governo novo, há uma mulher no comando do país, e tudo isso é novo e já foi tão desejado mas há uma tragédia que nos incomoda a todos, um sentimento de impotência e fraqueza diante do que aconteceu na região Serrana do Rio, onde morreu muito mais gente do que se escreve por aí, onde a coisa é mais feia do que se conta, e eu sei porque há quem me escreva de lá narrando as coisas espantosas que castigaram ricos e pobres naquelas serras tão bonitas, tão azuis. E lembro Petrópolis, meu encanto com a serra e a vegetação, quando lá fui escondida  e vivi clandestina algum tempo, que hoje nem sei precisar, numa daquelas horas de horror durante da ditadura. E houve Petrópolis, e depois Teresópolis e desde então amo aquelas terras, que são continuação de Minas, as serras e as terras.  Nao sei porque estou lembrando aqueles tempos agora. Deve ser porque hoje recebi o Hamilton Pereira, agora Secretário de Cultura de Brasilia, e num desvio de nossa agenda de trabalho ele acabou me contando coisas terríveis de seu tempo na Oban e no Carandiru, como preso politico,  sobre outros cabos-anselmos que andam por aí, e embora eu tenha trabalhando umas dez horas depois daquela conversa, ela me ficou na cabeça. Mas eu, que tão pouco posso vir ao blog, vim aqui hoje falar do meu incômodo com a velocidade do tempo e acabei falando de tantas coisas, tudo junto e misturado, certamente por conta da pressa que esta velocidade impõe. E por pressa, por ter outras coisas para escrever, apesar da hora, páro por aqui.T.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O tempo de Lula e o tempo que virá

Compartilho com vocês o artigo publicado no Correio Braziliense do dia 01 de janeiro de 2011


Estou mergulhada na edição de A era Lula, série documental que a TV Brasil exibiu na última semana de 2010. Com uma valorosa equipe que sacrificou as folgas de fim de ano para finalizar o trabalho, revisito as imagens deste período extraordinário para o Brasil. Saio da ilha e venho ao computador escrever o artigo. Como desejar feliz ano-novo aos leitores oferecendo alguma reflexão não tediosa?
Falarei das expectativas em relação à presidente Dilma ou compromissos que, como todo mundo, eu também fiz comigo mesma para o ano que se inicia?

Prometo fazer dieta, não faltar à academia, reduzir a carga de trabalho e o estresse, ficar mais em casa e com a família, viajar mais com meu filho. Ir mais ao cinema e cuidar mais de meu jardim. Contemplar mais vezes o entardecer sobre o lago, o sol morrendo atrás da Ponte do Bragueto enquanto as garças voejam e um casal de quero-quero faz rasantes sobre o gramado. Eu prometo, mas sei que não resisto aos chamados da vida embora esteja decidida a reduzir a velocidade.

Venho para o computador, mas as imagens que deixei na ilha não se despregam de mim. E elas me dizem que preciso falar, ainda um pouco mais, destes anos felizes e sofridos, estimulantes e decepcionantes, extraordinários e banais, esses anos irrepetíveis, depois dos quais nada mais será como antes no Brasil. Já falei do legado de Lula no artigo de dezembro, já dirigi uma série de TV falando disso.
Agora estou me referindo a um tempo, não exatamente a um governo. Um tempo em que Lula esteve no centro da nossa vida e isso vale para os que o admiraram como para os que o odiaram, para os que o apoiaram como para os que desejaram seu fracasso e mesmo sua derrubada. Um tempo é mais que um governo embora todo governo faça parte de um tempo.

O tempo em que vivemos sob Lula foi especial pelas razões já tão apontadas: porque alguém nascido do povo finalmente governava para o povo e fazia isso de modo absolutamente natural, com uma autenticidade irritante para os cultores do poder representado; porque, sem tisnar interesses, seu governo moveu o equivalente a uma França, fazendo com que 50 milhões de brasileiros ascendessem na escala social, para desgosto dos que desconhecem completamente o sentido da pobreza; porque, apesar da ampla aprovação popular, foi quase regra, nos meios de comunicação, retratar Lula como bravateiro tosco, senão como farsante; porque, apesar destas crônicas domésticas, lá fora existiu outro Lula, não apenas líder do Brasil e de nossa região, mas portador de nova mensagem na política internacional, que resultou em novos consensos e novos instrumentos de decisão multilateral, como o G-20 e a Unasul.

Um Lula que recebeu prêmios prestigiosos. O jornal francês Le Monde o escolheu como Homem do Ano em 2009. Logo depois o diário espanhol El País deu-lhe o título de Personagem Ibero-Americano e o Financial Times o incluiu entre as 50 personalidades que moldaram a década. O Forum Econômico de Davos deu-lhe o título de Estadista Global. Nem tudo foi resolvido em seu governo nem faltaram momentos de decepção. Faltou uma reforma política, avançamos pouco na saúde e na educação, não enfrentamos alguma questões delicadas, entre elas, a impunidade dos torturadores. Mas os tempos que vivemos sob Lula ficaram também marcados por grandes mesquinharias que devemos nos  esforçar para superar, agora que ele saiu da Presidência para voltar às ruas, como disse. Sob Lula, conhecemos o ódio de classe e, de certa forma, aos pobres. Chamaram o Bolsa-Família de bolsa-esmola.

Os que nunca acenderam uma lamparina desdenharam o programa Luz para Todos. O preconceito contra os nordestinos aflorou, sobretudo após a vitória de Dilma. Sob Lula, o jornalismo abandonou seus melhores cânones, colocou de lado as regras da boa técnica que fizeram da imprensa brasileira, sobretudo nos tempos da transição da ditadura para a democracia, uma das melhores do mundo. Sob Lula, a conjunção adversativa “mas” passou a frequentar as manchetes de jornais quando a notícia era positiva.

Agora vamos ser governados por uma mulher e, no que pese a novidade de gênero e o apoio de Lula, ela é branca, bem-nascida e tem curso superior, o que pode lhe render alguma boa vontade, pelo menos no início. Devemos aproveitar a lua de mel para deixar para trás, definitivamente, as torpezas e mesquinharias cometidas contra Lula e sob Lula, em grande parte porque lhe faltava um berço, um sobrenome, um diploma de curso superior e aquelas boas maneiras que só a elite conhece. A oposição pode ser mais eficiente sendo menos raivosa. A imprensa pode ser crítica sem ser preconceituosa. Seremos mais felizes com menos idiossincrasias. Tenhamos todos um feliz 2011.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Era uma vez no Brasil

Cheguei do Itamaraty há pouco: o coquetel de posse da presidenta Dilma era, naturalmente, uma colmeia agitada: muitos encontros, reencontros, apresentações, combinações, articulações. A grande maioria dos 4 mil convidados nao conseguiu cumprimentá-la. Mal conseguiu vê-la de longe.  Todos sabem que é assim mas todos querem estar lá.  O momento é unico: uma mulher chega à presidência e quebra mais um tabu da nossa historia política. Ave Dilma, feliz Governo!

Frequento aquele  palácio há um quarto de  século e dele tenho belas lembranças que um dia contarei. Mas sempre que estou lá, no salao de recepções, faço minha homanagem silenciosa a Niemeyer e a Lucio Costa, que nos deram tão elegante e tão brasileiro espaço para estas festas.

Em casa, agora, leio pela Internet que Lula chegou a São Bernardo, acompanhado do senador Sarney. O presidente do Senado tornou-se um grande amigo de Lula e teve um gesto de elegancia e delicadeza. Ele sabe o que é deixar a Presidencia.  Eu estava ao pe da rampa quando ele a desceu em 1990, após transmitir o Governo a Collor.  Era o primeiro presidente civil entregando a faixa ao primeiro presidente eleito, depois da ditadura. Vastas emoções ao pé da rampa, e algum pressentimento.

Leio que Lula chorou o voo todo. Dirão que por apego ao poder, dirão que isso apenas prova que nao queria deixar a presidencia.   Para entender este choro é preciso não apenas conhecer a vida de Lula. É preciso pertencer ao mundo de Lula: o mundo dos que vieram de muito longe, de muito baixo, sem berço e sem tradição, sem posses, sem referencias, contando apenas com uma mãe e um sentimento de luta.

Lula deixou o Planalto com 83% de aprovação. Não caiu na tentação do terceiro mandato,. nao mudou a Constituiçao em favor proprio. Se ele nao tivesse feito mais nada na presidência, já lhe deveriamos esta prova irrefutável de que é um democrata e um republicano. Se nao tivesse feito mais nada pelo Brasil. já lhe deveriamos ser reconhecidos por isso.

Agora vai começar o Brasil sem Lula na presidencia. Falemos dele depois.

T.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Legados da era Lula

Compartilho com vocês o artigo publicado no jornal Correio Braziliense do dia 04 de dezembro.


Neste último artigo do ano aqui no Correio, não tenho como não falar dos oito anos trepidantes, em todos os sentidos, que estão chegando ao fim. Os anos Lula não apenas mudaram para sempre o Brasil. Mudaram também nossa forma de sentir e pensar nosso país. Sob Lula, aprendemos a enxergar a pobreza, a importância de combatê-la e, mais recentemente, a celebrar sua redução. Vimos um presidente chegar ao poder contrariando tudo o que sempre nos pareceu natural: sem berço, sem diplomas, sem o apoio das elites econômicas e pensantes. Vimo-lo depois quebrar todas as convenções ao exercer o poder: falando a linguagem desabrida do povo, cometendo metáforas rasas e gafes frequentes, quebrando a liturgia do cargo, trocando o serviço à francesa do Itamaraty por um buffet self-service, tomando café com os catadores de papel e exercitando uma aguerrida diplomacia presidencial sem falar outra língua. Não haverá outro Lula, pois o Brasil que o gerou não haverá mais. E isso é bom.

Neste período, 28 milhões de brasileiros cruzaram a linha da pobreza e outros 20 milhões ascenderam à classe C. Mais extraordinário é que esse feito tenha acontecido sem a quebra de um só cristal. Ou seja, Lula não tomou uma só agulha dos mais ricos para dar aos mais pobres. Não privou os banqueiros de seus lucros para estender o crédito ao andar de baixo. Não reduziu as exportações do agrobusiness para dar mais comida ao povo. Não garfou a poupança da classe média para criar o Bolsa Família. Tudo fez harmonizando interesses e moderando conflitos. Todos ganharam, embora os mais pobres tenham começado a tirar a diferença. Em 2009, apesar da crise, a renda média dos 40% mais pobres cresceu 3,15% e dos 10% mais ricos apenas 1,09%. E isso é bom para todos, inclusive para os ricos. Este ano, os números serão mais eloquentes.

O crescimento da economia, que pode chegar aos 8% em 2010, será o maior em 24 anos. Desta vez foi crescimento sem inflação e com distribuição de renda. No final do período Lula, terão sido gerados 15 milhões de empregos. Este ano, a nova classe C vai gastar R$ 500 bilhões em 2010, superando o consumo das classes A e B. Isso é mudança.

Sob Lula, a percepção do Brasil mudou também lá fora. Agora o país é player, é líder no G-20, é um dos Brics, vai sediar a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas em 2016. Vamos perdendo o velho complexo de vira-latas.

Nem tudo foi resolvido, nem tudo foi feito e não faltaram as decepções. Sobretudo as políticas, com os casos de corrupção intermitentes. Mas o saldo a favor de Lula foi bem maior e levou-o ao píncaro da popularidade. Mesmo assim, ele continua sendo um presidente intragável para uma minoria. Talvez para aqueles 4% ou 5% que, nas pesquisas frequentes, consideram seu governo péssimo, contra os 80% que o consideram ótimo ou bom.

As relações com a mídia serão um capítulo na história a ser escrita. Vivi a minha pequena parte. Colunista política de O Globo, nunca apontei, nos seis governos e sete legislaturas que cobri, apenas o bem ou o mal. Assim erigi minha credibilidade de analista político. A partir de 2003, divergi do pensamento único que passou a vigir na mídia, não engrossando a cruzada anti-Lula. Na elite do jornalismo político, muito poucos, além de mim e de Franklin Martins, fugiram ao padrão monopólico e demonizador.

Houve preço. Em 2005, veio o maccarthismo e com ele os cães raivosos e o espírito de delação. Um deles espumou, em 2005, que Lula só não caíra ainda porque uma lista de jornalistas lulistas, aberta com meu nome, havia aparelhado a imprensa! Por algum tempo sustentei o apedrejamento, mas, já tendo sofrido uma ditadura, rejeitei a escolha entre autoimolação e sujeição. No final de 2007, aceitei o convite para dirigir a TV Pública que seria criada, cumprindo a Constituição Federal. Pouco vi o presidente depois disso. Tenho trabalhado com absoluta liberdade e os resultados estão aí. Nunca recebi queixas ou bilhetinhos de ministros.

Não tenho a menor importância na história maior que se encerra agora. Conto isso aqui porque esses detalhes fazem parte do ambiente venenoso, eivado de intolerância, elitismo e ódio de classe em que Lula governou e construiu o legado que deixa ao país.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

As cicatrizes de Dilma e a banalização das memórias da tortura

Não tenho escrito aqui, por absoluta falta de tempo. As madrugadas também viraram expediente neste final de ano, com tanto a fazer na EBC. Mal tenho acompanhado a cobertura política da transição mas não poderia deixar de comentar o noticiário sobre os arquivos da ditadura relacionados com a prisão, tortura e processo judicial enfrentados pela hoje presidenta Dilma.

Vi de relance, pela TV,  que ela estava muito emocionada na reuniao do Diretório Nacional do PT. Parece que chorou. Acho que ela tem vivido emoções fortes mas estava abalado porque mexeram em suas cicatrizes. 

Em nome da liberdade de imprensa, ainda serão feitas muitas revelações sobre a atuação de Dilma na resistência á ditadura.  Em nome da liberdade de imprensa, deveriam ensinar também aos mais jovens o que foi a ditadura, quem apoiou o regime e quem o combateu, quem resistiu ao arbítrio e quem lutou pela liberdade. Isso, sim,  seria construtivo, fortaleceria o apreço pela democracia brasileira.

Os mais jovens ficarão sabendo apenas que Dilma militou num certo grupo chamado Colina e numa organização denominada Var-Palmares, gerada pela fusão do Colina com a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária).  Para entender isso, seria preciso recordar o contexto criado pela repressão, que destruindo a democracia,  não deixou a uma geração de jovens brasileiros nenhuma outra saída.

Trinta anos depois, divulga-se apenas  que ela teria "assessorado" assaltos a bancos e ações armadas, e que sob tortura,  teria mencionado nomes de companheiros, locais de "pontos" (encontros) e de aparelhos (residencias clandestinas).  As matérias publicadas sugerem, de forma evasiva, que Dilma foi  "delatora". Ela foi presa em16 de janeiro de 1970, sofrendo  torturas e sevícias brutais nos 22 dias subsequentes, com uso de choques e pau-de-arara. Contou isso em maio,  ao ser ouvida pela Justiça Militar.

Mas quem Dilma teria delatado? Nenhum dos militantes que ela teria mencionado no depoimento obtido sob tortura "caiu" logo depois de sua prisão.  Dilma "mentiu muito", e é isso mesmo que um militante de valor precisava fazer ao enfrentar o tormento da tortura:  Jogar com o tempo e com as informações de que dispunha,  calculando cada minuto na disputa temporal com o torturador, uma disputa que podia significar a vida ou a morte. A própria e a dos companheiros.  Se Dilma falou no ex-marido Claudio Galeno, como está no depoimento, sabia que ele já estava longe, no exílio. Carlos Alberto Soares Freitas foi preso e desapareceram com ele, mas isso ocorreu em 1970, um ano depois.   Os demais já haviam "caído": Helvecio Raton, Erwin Resende Duarte, Reinaldo José de Melo, Angelo Pesuti, Murilo Pesuti, José Raimundo Nahas e Maria José Nahas.  Falar em quem já estava preso ou no exílio, bem como "entregar" aparelhos que já haviam "caído" era uma tática para ganhar tempo e quem sabe algum alívio,  embora a ira dos torturadores voltasse redobrada quando descobriam ter perdido tempo com informações furadas.

Em maio de 2008, Dilma falava ao Senado como ministra quando o senador Agripino Maia recordou ter ela dito numa entrevista que, durante a tortura, teria "mentido muito".  Não iria ela mentir também aos senadores, disse Agripino, tocando nas cicatrizes de Dilma.  Ferida, ela tornou-se uma leoa e seu discurso fez Agripino encolher-se.   Veja um trecho:

"Não é possível supor que se dialogue com pau de arara ou choque elétrico. Qualquer comparação entre a ditadura militar e a democracia brasileira só pode partir de quem não dá valor à democracia brasileira - disse Dilma, que emocionou a plateia que a ouvia na ocasião. - Eu tinha 19 anos. Fiquei três anos na cadeia. E fui barbaramente torturada, senador. Qualquer pessoa que ousar dizer a verdade para interrogador compromete a vida dos seus iguais. Entrega pessoas para serem mortas. Eu me orgulho muito de ter mentido, senador. Porque mentir na tortura não é fácil. Na democracia se fala a verdade. Na tortura, quem tem coragem e dignidade fala mentira. E isso, senador, faz parte e integra a minha biografia, de que tenho imenso orgulho. ".

Veja também o video desta cena, uma das primeiras, no Governo Lula, em que Dilma se destacou como ser político e não como técnica:  http://www.youtube.com/watch?v=7r3nVbYa138

Dilma é presidenta hoje, é natural que se queira saber de sua vida passada.  O país tem direito a estas informações mas devia ter direito  também às histórias completas da ditadura.

Em relação á tortura, deveríamos todos evitar a banalização, não só em relação a Dilma , mas a todos aqueles que a sofreram, lutando para que hoje tivéssemos uma democracia, estejam eles agora  no PT ou em outros partidos.

TC